A indiferença e a ausência de paixões e afetos são estados emocionais que se resumem numa única palavra: apatia. Quando alguém – que não era – se torna apático, é sinal de alerta.
Muitas salas de aula são palco de um triste enredo: alunos e professores apáticos, desinteressados, desmotivados. Qualquer docente, seja do setor público ou privado, está predisposto a desenvolver esse estado de desânimo ou, então, a manifestar a Síndrome de burnout: uma exaustão emocional, que leva à intolerância, à grosseria e a desumanização dos relacionamentos.
Os jovens, em sua maioria, precisam de dinamismo e novos desafios; carecem de algo que os instigue a aprender, a fazer e a sentir. Diante de uma aula sem “incentivo” a desmotivação é quase natural. O professor, por sua vez, afetado por inúmeros fatores – incluindo o próprio desinteresse dos alunos – não consegue produzir, instigar, inovar e ganhar-lhes a atenção.
Uma coisa leva à outra e esse ciclo precisa de um rompimento que venha de todos os lados: escola, docente e, claro, também do aluno.
A apatia no ambiente de trabalho vem sendo tem de estudos frequentes. Hoje, além da apatia e da desmotivação, a Síndrome de burnout é o diagnóstico que muitos terapeutas estão emitindo, diante de profissionais que atuam “no limite” de suas forças.
Principais causas da apatia no ambiente escolar
A apatia observada em sala de aula é gerada por uma combinação de fatores que podem estar dentro ou fora do contexto escolar. Há situações mais esporádicas e bem pessoais, como a apatia provocada por problemas familiares – divórcio, doença, mudança, entre outros – e questões emocionais, como estresse, a ansiedade, a depressão... Mas esses são casos isolados. Quando a situação está generalizada, o problema está na relação ensino-aprendizagem. O aluno torna-se passivo diante desse processo e o professor assume o papel de transmissor de conhecimento. As aulas se tornam menos dinâmicas, os alunos se interessam cada vez menos, o professor se desmotiva e surge um ciclo extremamente prejudicial. Além de outras questões.
No caso do professor, a apatia pode ocorrer devido a fatos cotidianos: ambiente físico, ou a inadequação ou ausência de equipamentos, luminosidade e móveis; problemas de relacionamento entre os membros da equipe; problemas com os alunos ou as famílias deles; lentidão dos gestores ou falta de apoio para solucionar problemas; excesso de cobranças, entre outros.
Principais sintomas dos alunos apáticos
A apatia é inicialmente, observada por meio da desmotivação. Os alunos se tornam menos ativos e menos envolvidos, demonstrando desinteresse pelo aprendizado. Aos poucos, a passividade vai dando lugar à indisciplina, já que não há foco de atenção no conteúdo. As consequências podem ir desde a queda do desempenho acadêmico até a reprovação, podendo ainda chegar, em alguns casos, à evasão escolar.
Posicionamento da escola e dos professores frente à apatia
É importante intervir antes de o problema tomar grandes proporções. Melhor ainda seria se fosse feito um trabalho preventivo. Para isso, uma boa alternativa é inserir o professor no desenvolvimento de projetos pedagógicos e metodologias de ensino. O professor, por sua vez, precisa inserir o aluno no processo ensino-aprendizagem, fazendo-o participar ativamente das aulas. Os conteúdos devem ser passados de forma mais concreta possível, aproximando o assunto abordado da realidade dos jovens. Quanto mais recursos usados, mais interessantes será a aula: filmes, gincanas, teatros, passeios, visitas, feiras culturais, seminários, discussões, entre outros. Assim, será menos provável que alunos e professores tornem-se apáticos, já que estarão envolvidos de forma ativa nesse processo.
Sintomas de apatia de professores em sala de aula
As principais características de um profissional apático é não ter energia para trabalhar e ser indiferente às situações de trabalho. É importante destacar que a apatia não é um comportamento, um rótulo, mas um conjunto de comportamentos que incluem insensibilidade, indiferença, impassibilidade, inércia e marasmo. Pode também estar correlacionada à diminuição ou perda de interesse ou vontade de realizar as tarefas. Quando um indivíduo se comporta dessa forma, passa a trabalhar como uma “máquina”, produzindo apenas o que é solicitado.
Em 2007, a revista Nova Escola publicou uma pesquisa do Ibope, em que foi analisado o perfil dos docentes. A pesquisa investigou como os professores brasileiros se relacionam com o trabalho, os alunos e a escola e como enxergam o futuro da profissão. O resultado mostrou que a maioria dos professores dos professores tem amor à profissão e trabalha no que gosta, porém vive grandes sentimentos de insatisfação. As três maiores surpresas da pesquisa estão na relação professor e alunos e no ambiente de trabalho. Os alunos são vistos como desinteressados e indisciplinados. Junto com a família, os professores consideram os alunos como o principal problema. Outro ponto que merece destaque é que os professores se dizem pouco preparados para o dia a dia dentro da sala de aula.
A conclusão que se chega é que a desmotivação e consequente apatia dos professores, assim como dos alunos, é multifatorial, ou seja, além das transformações sociais, existem as culturais, políticas, econômicas e tecnológicas que, de maneira geral, a escola não acompanha. Ao longo dos anos, a defasagem do currículo e dos conteúdos, a falta de relação com a realidade e uma série de outros fatores resultaram em dificuldades de aprendizagem dos alunos. Um sistema educativo de sucesso deve ser entendido como a articulação de três subsistemas: o escolar, o sociocultural e o familiar, uma vez que a “desistência” da escola, enquanto instituição, e o desânimo do professor poderiam significar um desastre em longo prazo.
A solução
Não é possível dar uma solução generalizada. O que existe é a necessidade do entendimento de cada caso, de cada indivíduo dentro da organização educativa. Aqui entra o papel do gestor, cabendo a ele identificar quais os pontos que podem estar contribuindo para esse processo de desmotivação e consequente apatia, uma vez que um bom diagnóstico é necessário para levar a uma intervenção adequada. Outro caminho: descobrir com os próprios professores as melhores alternativas e soluções para a superação do quadro apático. Geralmente, quem está passando por um problema tem as respostas para a sua resolução. Mas ele precisa ser motivado a acreditar que suas respostas são boas e serão ouvidas.
Atitudes do professor para superar o problema da apatia e Síndrome de burnout
Procurar ajuda sempre! Alguns professores têm muita dificuldade para assumir que precisam de ajuda, porque sentem medo de serem julgados ou de colocar o emprego em risco, não só o emprego, mas anos de trabalho, de empreendedorismo e de aprendizagem. Coloca também em risco os alunos, que participantes de aulas desinteressantes, sentem-se desmotivados, podendo cair na mesma “armadilha”. Quando não existem mais alternativas a serem partilhadas pela escola, é hora de buscar ajuda fora dela.
O professor deve procurar um profissional da área de Psicologia para ajudar: tanto a escola quanto o professor. É preciso saber se o problema encontra-se na esfera do profissional. Cada situação tem um tipo diferente de intervenção. As pessoas são diferentes e reagem de maneira particular. O que não pode ocorrer é fazer de conta que está tudo bem e vai passar, porque nem sempre passa. O que não está bem resolvido pode ter consequências desastrosas. É preciso que a escola perceba o professor enquanto profissional, mas, principalmente, como pessoa.
Autoras do artigo publicado na Revista Maxi Educação:
- Kellen M. Escaraboto Fernandes, graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina, especialista em Análise do Comportamento por esta mesma universidade e em Educação Especial pela Universidade Norte do Paraná.
- Carina Paula Costelini, graduada na Universidade Estadual de Londrina, especialista em Análise do Comportamento Aplicada pelo Centro Universitário Filadélfia e especializanda em Psicopedagogia pelo Instituto de Estudos Avançados e Pós-Graduação.
Em tempo: A palavra burnout é originada do inglês burn out (queimar por completo) fazendo referência a um esgotamento profissional. A Síndrome de burnout é vista como um tipo de estresse ocupacional em que a pessoa apresenta um quadro de exaustão física e emocional. Resulta, geralmente, de uma exposição prolongada a níveis de estresse exacerbados.
















